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Karapotó Terra Nova

Não existem muitos dados disponíveis em relação aos Karapotó. Alguns levantamentos foram feitos, mas são de difícil acesso. A história oral dos Karapotó, contada em Dois Dedos de Prosa¹ com os Karapotó (1998), é uma das poucas fontes. Nela, os depoimentos das lideranças indígenas afirmam a construção de uma história fundada na identidade étnica, na família e na tradição.

Desde o século XVIII, contudo, se encontram referências históricas da presença de índios Carapotó, Coropotios, Carapotios, Cropotís – etnônimo de referência para os atuais Karapotó – em território do atual estado de Alagoas e Pernambuco. Sua presença é citada tanto entre os Karnijó (Fulni-ô) na serra do Comunati entre 1681/85 como habitando o aldeamento Alagoa Comprida, na Villa do Penedo em 1739. Há, também, registros de índios Carapotós no baixo São Francisco em 1759 e, particularmente, na localidade denominada Lagoa Comprida em Porto Real do Colégio junto aos Kariri-Xocó.²

A tradição oral revela que em tempo imemorial houve uma migração de parte da população Karapotó da região do semiárido denominada Salomé, atual município de São Sebastião, para Porto Real do Colégio, onde passaram a habitar no aldeamento Kariri-Xocó. Esta migração deve ser entendida como estratégia de sobrevivência elaborada pelo grupo diante das constantes perdas territoriais provocadas pelo crescente povoamento de não índios na região. Referências bibliográficas, bem como a tradição oral, apresentam a estreita relação entre esses grupos indígenas, sendo esta uma possível explicação para a busca de assistência. Desta forma, ocorre um constante processo de reterritorialização dos Karapotó que reflete em sua organização social e cultural.

Neste caso, observa-se que em 1982 o então presidente da Comissão Pró-Índio de Alagoas e antropólogo Clóvis Antunes encaminha para o delegado regional da Funai/NE, Leonardo Reis, cópia de um relatório enviado à presidência da Funai sobre os índios da Tribo Tingui, localizados no município de São Sebastião. Antunes refere-se a esses índios como Tingui, devido a uma localidade com esse mesmo nome que eles estariam reivindicando para habitarem. No relatório, Antunes menciona que dentre esses, 200 pessoas estariam vivendo em Porto Real do Colégio e um grupo menor em Terra Nova – município de São Sebastião – e que estariam mantendo “contato com a Funai para serem reconhecidos nos seus direitos como descendentes de índios”. Por isso, inicialmente na documentação produzida pelos próprios índios2, os atuais Karapotó aparecem sob o etnônimo Tingüi e/ou Tingüi-Kariri, inclusive, Antunes também cita os Tingui-Botó-Wakonã localizados em Olho d’Água do Meio ou do Taboado no município de Feira Grande.

A reorganização política do grupo na década de 1980 foi uma ação movida pelos próprios índios, liderados pelo cacique Juarez de Souza e pajé Antônio Isidoro, como se pode inferir do depoimento do Cacique: “Os mais velhos só falavam de Tingui e aí nós fomos procurar pelos Tingui. Na verdade, não era Tingui, pois eu fui ao final da história... comecei outro movimento. A gente se reunia e por algumas conversas que eu ouvia dos mais velhos comecei a passar para os índios no Porto Real do Colégio. Um dia nós estaríamos dentro de nossa terra e chamaríamos de Karapotó”. Este depoimento pode ser considerado uma referência à memória coletiva do grupo. O cacique estava em Terra Nova quando iniciou a busca pelo reconhecimento oficial étnico e territorial e observa que os Karapotó estavam dispersos, “tinha índio no Colégio, na Terra Nova, na Cana Brava, no Curral de Cima [...]”.

Os Karapotó, mesmo na condição de desaldeados, não deixaram de se relacionar com a região que atualmente ocupam, inclusive com a identificação de lugares sagrados cuja busca por significado esbarra na impossibilidade da revelação, como sugere estudos arqueológicos sobre o grupo: “Na localidade Fazenda da Vaca o cacique nos informou que encontraram um objeto enterrado dos antepassados que não pode ser revelado. Também havia cacos de cerâmica e a “raiz das primeiras raízes”, erva importante para os Karapotó, que também não pode ser revelada, fazendo parte do segredo da aldeia. Fizeram menção sobre a existência de uma fonte na área que foi cavada com “cavador de pau”, essa fonte foi extinta, segundo relato do Cacique fica próximo ao centro da aldeia”.³

Diante das evidências apresentadas pelo grupo, o então presidente da Funai, Romero Jucá Filho, em Portaria&sup4; datada em 11 de abril de 1988, resolve constituir equipe técnica para identificar a área indígena Karapotó de acordo com os Decretos nº 94.945/87 e 94.946/87. Assim, a antropóloga coordenadora do GT Maria de Fátima Brito, juntamente com desenhista, engenheiro agrônomo e técnico agrícola passam a compor essa equipe. Em dezembro, Brito encaminha ao chefe do SID/DFU/3ª SUER o Relatório dos Trabalhos de Identificação e Delimitação da Aldeia Karapotó. Neste relatório é descrito que na área proposta de 1.810 hectares pelos índios, encontram-se “os antigos terreiros de dança, igreja e cruzeiro, que foram destruídos pelos invasores, além de estarem localizados os tanques para o abastecimento d’água, que foram cavados pelos índios, e ainda hoje existem naquele local”. Tratava-se de área que incluía “antiga Fazenda Tingui, compreendendo hoje a Fazenda Tabuado, o Sítio Tapera e vizinhanças chegando até as margens do rio Boa Cica”.

Vários conflitos entre índios e não-índios foram agravados após essa identificação, chegando os Karapotó a ocuparem área de posseiros para pressionar a regularização de território identificado. Em virtude das reivindicações indígenas, o então Presidente da Funai, através da Portaria n. 687 de 28 de julho de 1997, resolveu constituir um GT para levantamento fundiário das terras a serem desapropriadas e destinadas para ocupação do grupo indígena Karapotó, de acordo com Decreto S/N de 11 de agosto de 1992.

Após a demarcação da área, passou a existir dois grupos Karapotó: o autodenominado Karapotó Plak-ô, liderado por Juarez de Souza, e Karapotó Terra Nova, em referência ao povoado onde residem, liderado por Antônio Isidoro dos Santos.

O primeiro relatório de identificação da Terra Indígena Karapotó, realizado em 1988, tinha como proposta a demarcação de uma área de 1810 hectares, dos quais 1100 hectares foram adquiridos pela Funai em 1995. Uma área descontínua da primeira conhecida como Salobro, com 270 hectares, foram adquiridos posteriormente pelo órgão indigenista em 2003. Atualmente o grupo Karapotó Plak-ô ocupa área adquirida da fazenda Taboado, uma área descontínua conhecida como Cabeça de Vaca e alguns imóveis contínuos a antiga Fazenda Taboado até o limite da estrada da Barroca. A área conhecida como Estiva e os imóveis adquiridos contínuos a Estiva, ambos após a estrada da Barroca, bem como a área descontínua conhecida como Salobro, são ocupadas pelo grupo Karapotó Terra Nova.

CULTURA

A cultura dos índios Karapotó está profundamente ligada ao seu modo de vida e a sua religiosidade. Tradição religiosa, processos de territorialização e etnicidade são elementos importantes para a compreensão do modo de vida indígena e de sua cultura. Para os Karapotó, a tradição está ligada a construção da identidade étnica. Esta identidade não é atemporal, embora seja representada muitas vezes por um “tempo imemorial”, ela é fruto das relações entre o índio e a sociedade envolvente; entre a semelhança e a diferença; entre o espaço da vida - que se vive na terra - e o tempo – que se vive no ritual, herdado pelos ancestrais e transformado em tradição. Nesta relação identitária, o índio forma seu sentimento de pertença a uma tradição, a uma família, a uma coletividade - conformando sua etnia, sua história e sua cultura.



A genealogia Karapotó é base de toda história e tradição cultural. Não há como definir a cultura Karapotó se não for pela transmissão do conhecimento dos mais “velhos” para os mais “novos”. É nesta perspectiva que o índio Karapotó Terra Nova, Cílio Batista, define o que é ser índio: “Ser índio é uma coisa que a gente já nasce sendo, já vem de raiz. A gente tem orgulho. O índio não é pra se fazer, já vem feito”. A partir desta definição da identidade étnica, pode-se entender o que diferencia o índio do não-índio, isto é, a cultura. Nela está o segredo e o sagrado indígena, jamais revelado ao não-índio. Novamente, o índio Cílio Batista confirma esta visão: “O índio e o não-índio, todos são filhos de Deus, mas tem coisa que o não-índio não pode alcançar do índio. Tem coisa que o não-índio não sabe e nunca vai saber”.

É na relação tradição-identidade-religião que deve-se compreender a cultura indígena Karapotó. Uma cultura que passa pela diversidade do artesanato até chegar a unidade do ritual do Ouricuri. Para algumas comunidades indígenas do Nordeste, em especial as de Alagoas, o Ouricuri é mais do que um ritual, ele é símbolo de etnia, guardião do segredo e do sagrado modo de ser indígena.

O espaço do Ouricuri é o espaço de unidade da comunidade. É nele que as diferenças entre os índios acabam. Embora seja um espaço sagrado e um ritual imemorial, o Ouricuri se afirma pela identificação com a tradição ancestral situado num espaço sagrado; ou seja, num território marcado pela história de resistência e pela simbologia dos rituais.

Outra dimensão importante do Ouricuri é a simbologia sagrada da natureza. As árvores são um referencial do espaço religioso desse ritual. Cada planta tem um uso e um significado para o índio Karapotó, seja ele medicinal ou ritualístico. A jurema preta, por exemplo, serve para fazer remédio do ritual. A “mata” que circunda o Ouricuri guarda os segredos da ciência indígena. Portanto, a natureza (enquanto parte do território Karapotó) não tem apenas um sentido material, pois ela é, também, espaço das relações sagradas do ritual. Assim, não há como existir o Ouricuri sem uma natureza que o guarde e o preserve; assim como não há natureza sem a preservação desta. O índio Karapotó conhece bem a importância da preservação do meio ambiente, pois é nele que se planta, trabalha, funda as suas tradições e a sua religiosidade. Qualquer ameaça a natureza é considerada uma ameaça ao modo de vida Karapotó. A natureza, para os Karapotó, guarda a terra dos ancestrais e a tradição sagrada do Ouricuri. Neste sentido, a preservação da natureza não é responsabilidade de um índio, mas de toda comunidade.

Comumente os Karapotó participam dos rituais católicos: vão à missa aos domingos, batizam seus filhos e freqüentam as festas religiosas. Nas casas, são comuns as imagens de santos populares, como Padre Cícero e Frei Damião, e diferentes representações de Nossa Senhora. Entretanto, apesar da influência que os Karapotó têm do catolicismo, o Ouricuri continua sendo, para a grande maioria deles, a experiência da vida sagrada, de onde vem o segredo e a ciência indígena, em síntese: sua cultura.

DADOS GERAIS

A Comunidade Indígena Karapotó Terra Nova está localizada na zona rural do município de São Sebastião, a 125 quilômetros da capital Maceió. Estima-se que a população gira em torno de 600 pessoas.

Localização das Comunidades Indígenas Karapotó Terra Nova e Karapotó Plak-ô. Fonte: DNIT; COPPETEC. Estudos Etnoecológicos – Relatório final Terra Indígena Karapotó. Rio de Janeiro, 2011.

LIDERANÇAS

Rosicleide dos Santos Silva (Nena Isidoro) – Cacique

Ercílio Batista – – Pajé

¹ ALMEIDA, Luis Sávio (Org.). Dois Dedos de Prosa com os Karapotó. Maceió: Edufal, 1998.
² MONTEIRO, Elizabeth Brêa. Informações sobre os índios Carapotó. Museu do Índio: Rio de Janeiro, 1985. Obs: Em atendimento ao radiograma nº 178/ AESO de 12 de março de 1985.
³ ALLEN, Scot. Pesquisas Arqueológicas nas Terras Indígenas de Alagoas. IN: Atlas das Terras Indígenas de Alagoas. Núcleo de Antropologia Visual. Universidade Federal de Alagoas, Maceió. (no prelo).
&sup4; OLIVEIRA, Iris Pedro (Presidente da FUNAI). Portaria PP nº 0411/88. Institui Grupo de Trabalho para identificação da AI Karapotó. Brasília: 1988.

BIBLIOGRAFIA

DNIT; COPPETEC. Estudos Etnoecológicos – Relatório final Terra Indígena Karapotó. Rio de Janeiro, 2011.