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Kariri Xocó

A formação histórica dos Kariri-Xocó é resultado de um aldeamento missionário feito por jesuítas, por volta do século XVII e XVIII - embora desde o início do século XVII já se falasse de povos Kariri ou Kiriri habitando a região do Rio São Francisco. Segundo Mata¹ (1989), a união dos Kariri com os Xocó ocorreu no século XIX, como resultado da expulsão dos Xocó de suas terras, no município de Porto da Folha, em Sergipe.

Os índios Kariri e Xocó compartilharam um passado cultural e parentesco a partir do qual eles se tornaram os Kariri-Xocó. Vários indivíduos de outros grupos indígenas, tais como os Pankararu, Fulni-ô, Carapotó e Xucuru-Kariri estão também presentes entre os Kariri-Xocó, inclusive compartilhando laços de parentesco através de casamentos. É comum escutar explicações entre os Kariri-Xocó que seus antepassados Xocó vieram para Porto da Folha e se juntaram aos índios dali e formaram um grupo único. Eles também explicam sobre conflitos internos entre os Kariri e Xocó que revelam que apesar dos casamentos e parentesco, eles estão divididos e assim se identificam na área Kariri-Xocó como sendo Kariri ou Xocó, havendo neste caso, dois caciques e dois pajés.

Os limites da atual demarcação da área Kariri-Xoco estão baseados em doação realizada pelo então governador de Pernambuco Sebastião Castro Caldas, em 1708, de terras para aldeamentos missionários localizados em Porto Real de Colégio e São Brás. Essa doação seguiu determinação do Alvará Régio de 23 de novembro de 1700 no qual estabelecia que uma légua em quadra deveria ser destinada a cada missão para comunidades indígenas. Segundo Mata, os missionários Jesuítas em Porto Real do Colégio administraram principalmente suas atividades econômicas, destacando a criação de gado e cultivo de arroz.

A República do Brasil nasce sem a presença de índios oficialmente reconhecidos em Alagoas. Apenas em 1944, depois de reivindicações dos Kariri-Xocó pelo reconhecimento étnico e territorial, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) reconheceu-os oficialmente enquanto grupo indígena. A Inspetoria Regional 4 (IR4), do SPI, localizada em Recife, foi responsável por assistir 8 diferentes grupos indígenas no Nordeste durante a década de 1940. De acordo com Pinto² , o Posto Indígena do SPI, localizado em Porto Real do Colégio,registrou uma população estimada em 173 índios, entre eles constavam Natu, Xocó, Carapoto e ‘Pratio,’ Naconã, alguns dos quais eram [índios] ‘Cariri’.

Neste período, parte dos Kariri-Xocó habitava na cidade de Porto Real do Colégio, na Rua dos Caboclos. Em relatório datado em 1945, o dirigente do Posto do SPI em Colégio descreve que 166 índios recebiam assistência e viviam em penúria, em 67 casas na Rua dos Caboclos na cidade de Porto Real do Colégio. Neste documento há menção que os índios estavam numa situação de miséria e sem meios econômicos de subsistência, o que também, motivou ao funcionário do SPI à sugerir à IR4, como solução, a aquisição de uma parcela de terra que poderia ser usada pelo grupo para fins de agricultura de subsistência.

Em 1948, os Kariri-Xocó receberam 54,50 hectares de terra, em um local chamado Colônia. Esta parcela de terra não era somente insuficiente, mas devido a sua localização, distante 3 km do curso do rio, tornava-se difícil à prática agrícola, como por exemplo, o cultivo de arroz, principalmente durante períodos de seca. Este condição se agrava em 1950, quando, segundo Mota, esta área foi reduzida em virtude da construção da ferrovia que atravessou essa terra, reduzindo-a a 35 ha.

Em 1978, depois de um ritual do Ouricuri, 700 índios Kariri-Xocó reconquistaram uma área que eles consideraram terra ancestral e reivindicavam como parte de seu território tradicional. Segundo o pajé Júlio Queiroz, a terra em questão tinha como referência o Alto do Bode, onde havia um cemitério indígena e, por isso, de significativo valor cultural. Essa parcela de terra chamada de Sementeira media 428 ha e estava sob administração da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF). Contudo, observa-se que parte dessa área estava ocupada desde 1957 por posseiros que tomaram 220 ha de terra em 1957, área denominada Cercado Grande. Então, a partir da área Sementeira, somente a Fazenda Modelo, com uma área de 225 há, foi realmente ocupada pelos índios em 1978.

Como supracitado, em 1978, os indígenas promoveram a retomada da Fazenda Modelo e em 1993 o governo expulsou os posseiros do Cercado Grande. Os conflitos entre índios e não-índios foram agravados quando os Kariri-Xocó reivindicaram toda a área da Sementeira. A demarcação administrativa de Kariri-Xocó foi homologada pelo Decreto de 04 de outubro de 1993. O governo homologou o território Kariri-Xocó na dimensão de 699.35 ha que incluiu três áreas: Colônia, Sementeira – neste caso: Fazenda Modelo e Cercado Grande – e floresta do Ouricuri.

CULTURA

Para os Kariri-Xocó, tempo, tradição, ritual e resistência se confundem no processo de formação da sua etnia e da sua cultura. A cultura dos índios Kariri-Xocó é, fundamentalmente, a cultura de pertença a uma comunidade e a uma tradição. A ideia de cultura está profundamente ligada a um lugar e a uma história de vida resistente desses povos indígenas. Nessa história, tradição, família e religião marcam a vida e a identidade cultural Kariri-Xocó. O sentimento de pertença a uma sucessão de gerações fundamenta a identidade do índio como aquele que se reconhece historicamente pertencente a uma tradição cultural de resistência. O Cacique Cícero de Souza Santiago deixa claro esse sentimento de pertença a uma tradição: “A criança desde pequeno vai aprendendo o nosso Toré, nosso ritual, a nossa tradição. A pessoa [o índio] pode ir aonde ele quiser e fazer o que quiser, mas ele nunca esquece a tradição”.

É importante reforçar que para algumas comunidades indígenas do Nordeste, em especial as de Alagoas, o Ouricuri é mais do que um ritual, ele é símbolo de etnia, guardião do segredo e do sagrado modo de ser indígena. Para Pajé José Bonifácio, o Ouricuri representa a unidade entre a pureza do espírito e da matéria, condição que o branco não tem: “No Ouricuri, se eu não estiver com o meu espírito e a minha matéria puros, eu não posso ir para o Ouricuri. Este é o caso do branco”. Segundo Vera Calheiros Mata (1989, p. 274)³, o Ouricuri ainda é muito importante para o grupo, “enquanto um sistema de crenças, ritos e símbolos”, desenvolvendo a consciência étnica da comunidade Kariri-Xocó. Ser índio em Porto Real do Colégio significa conhecer os segredos da ciência Kariri-Xocó e o sagrado do Ouricuri, desde a primeira infância.

Outra dimensão importante da cultura Kariri-Xocó é sua relação com a natureza, principalmente com a terra. Esta é síntese do modo de ser e de viver da comunidade. A terra é o espaço das relações entre as idealidades da cultura e a materialidade das relações sociais de produção. O Pajé Júlio Queiroz fala dessa relação como elo entre a sua comunidade e os seus ancestrais: “Sem a terra, fica difícil passar o conhecimento dos mais antigos, principalmente, o conhecimento da agricultura, da terra... É preciso ampliar a mata do nosso ritual”.

Do mesmo modo que a maioria dos índios de Alagoas, os Kariri-Xocó também participam dos rituais católicos: vão à missa aos domingos, batizam seus filhos e frequentam as festas religiosas. Nas casas, são comuns as imagens de santos populares, como Padre Cícero e Frei Damião, e diferentes representações de Nossa Senhora. Entretanto, apesar da influência que os Kariri-Xocó possam ter de outras religiões, o Ouricuri continua sendo, para a grande maioria deles, a experiência da vida sagrada, de onde vem o segredo e a ciência indígena, em síntese: sua cultura.

DADOS GERAIS

A Comunidade Indígena Kariri-Xocó está localizada no município de Porto Real do Colégio, a 180 quilômetros da capital Maceió. A população, segundo o Censo Demográfico 2010, é de 2.011 pessoas.

Localização da Comunidade Indígena Kariri Xocó. Fonte: DNIT; COPPETEC. Estudos Etnoecológicos – Relatório final Terra Indígena Karapotó. Rio de Janeiro, 2011.

LIDERANÇAS

Cícero de Souza Santiago – Cacique Xocó

José Bonifácio de Souza – Pajé Xocó

José Tenório – Cacique Kariri-Xocó

Júlio Queiroz Suira – Pajé Kariri-Xocó

¹ MATA, Vera Lúcia Calheiros. A semente da terra: identidade e conquista territorial por um grupo indígena integrado. Tese de doutorado. Rio de janeiro: PPGA/MN/UFRJ, 1989; MOTA, Clarice Novaes da. As Jurema Told us: Kariri-Shocó and Mode of Utilization of Medicinal Plants in the Context of Modern Northeastern Brazil. PhD. Dissertation. University of Texas, 1987.
² OLIVEIRA, Carlos Estevão de. O Ossuário da Gruta-do-Padre, em Itaparica, e Algumas Notícias sobre Remanescentes Indígenas do Nordeste. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco. Recife, 38: 147-174.
³ MATA, Vera Lúcia Calheiros. A Semente da Terra: Identidade e Conquista Territorial por um grupo indígena integrado. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional. Universidade Federal do rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1989.

BIBLIOGRAFIA

Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes; COPPETEC. Estudos Etnoecológicos – Relatório final Terra Indígena Kariri-Xocó. Rio de Janeiro, 2011.