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Wassu-Cocal

A presença dos Wassu-Cocal na região do leste alagoano é de tempo imemorial, contudo existe maior concentração de referências documentais do século XIX. Segundo o historiador Edson Silva, a origem da Aldeia Urucu, atual Cocal, remonta ao período final dos combates aos quilombos de Palmares. O aldeamento foi fundado em terras doadas pela coroa portuguesa como recompensa aos índios pela participação nas forças coloniais que destruiu o reduto palmarino. A aldeia, assim como a dos municípios de Escada (PE) e Jacuípe (AL), constituiu-se por índios de antigas missões franciscanas e mais índios que vieram da Paraíba acompanhando as tropas de Domingos Jorge Velho que, estando combatendo os índios na chamada “Guerra dos Bárbaros”, foi convocado para deslocar-se até Alagoas para guerrear contra os Quilombos dos Palmares.

O aldeamento Wassu, naquele tempo apenas denominado por Cocal, aparece na documentação do Diretório dos Índios na década de 1830. Em 1865 o Diretor Geral dos Índios José Rodrigues Leite Pitanga informou ao presidente da província das Alagoas que o aldeamento Cocal estava demarcado, exceto o lado esquerdo do rio Camaragibe. Sua localização coincide com a atual aldeia Wassu "a margem esquerda do rio Camaragibe e distante 5 léguas da povoação de Leopoldina"¹. Nesse período, apesar de alguns aldeamentos estarem em avançado processo de demarcação, eles foram extintos por Decreto Provincial em 1872.

Esta condição dos Wassu era comum à de outros grupos indígenas: índios desaldeados e caracterizados como camponeses. Foi esta condição encontrada pelo pesquisador Clóvis Antunes², no final da década de 1970, quando realizou o primeiro estudo sobre o grupo no período republicano, momento em que se inicia a busca dos Wassu pelo reconhecimento oficial e restabelecimento territorial. No decreto Nº. 93.331, de 2 de outubro de 1986, assinado pelo então presidente José Sarney, é declarada a área indígena Wassu-Cocal nas terras situadas ao município de Joaquim Gomes, definindo em seu Parágrafo único: “A área descrita neste artigo, denominada Área Indígena WASSU/COCAL, será demarcada administrativamente pela Fundação Nacional do Índio – FUNAI” e em seu art. 2º excluiu da Área Indígena Wassu-Cocal, a faixa de domínio correspondente à BR-101, segundo a legislação em vigor.

Em 23 de dezembro de 1991 o presidente Fernando Collor de Melo assinou o decreto N º. 392 que homologou, para os efeitos do art. 231 da Constituição Federal, a demarcação administrativa promovida pela Fundação Nacional do Índio (Funai), da área indígena Wassu-Cocal, caracterizada como de ocupação tradicional e permanente indígena.

Os índios Wassu Cocal vivem hoje em uma área regularizada de 2.744 hectares e perímetro de 24.215 metros, com extensão territorial em quatro municípios de Alagoas: Joaquim Gomes, Matriz do Camaragibe, Colônia Leopoldina e Novo Lino. Recentemente, mais precisamente em 13 de julho de 2012, foi publicado no Diário Oficial da União o resumo do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação, ampliando a área já existente. O referido Relatório acrescentou à área regularizada 9.098 hectares, aumentando o território dos Wassu Cocal para 11.842 hectares.

A rodovia BR-101 cruza ao meio a Comunidade Indígena Wassu-Cocal no 20,6 km até o 27,3 km, perfazendo 6,7 quilômetros. A construção da mesma na década de 1950 ocorreu quando os índios estavam desaldeados, não havendo qualquer tipo de compensação ou ação mitigadora sobre os impactos causados pelo empreendimento, diferentemente da realidade atual, com a implantação dos Planos Básicos Ambientais Indígenas (PBAIs) no âmbito desse novo momento da duplicação da rodovia.

CULTURA

Após centenas de anos de aproximação com a civilização europeia, os índios do Nordeste têm na religiosidade ancestral um dos seus mais importantes elos culturais. Desta forma, seus ritos, denominados de Ouricuri, constituem a concepção que os índios têm a respeito do mundo nos seus mais diversos aspectos, sobretudo os de natureza espiritual. O ritual, enquanto princípio organizador, é o que dá sentido à terra, à família, à identidade, à chefia. Estrutura a vida perceptível mediante a ordenação do sagrado, do misterioso e do intangível, daquele reduto de vida indígena que a sociedade não-índia não consegue dominar.

O corpo ritualístico é formado, essencialmente, em um conjunto de cantos e danças. É celebrado em espaço físico próprio denominado de Ouricuri, gleba situada no meio da mata, de caráter restrito, fechado a visitação e exclusiva apenas aos índios e seus convidados. A prática do Toré, dança ritual consubstanciada da prática do Ouricuri, além da sua ritualidade, representa o aspecto social e lúdico caracterizado por seus trajes típicos e pinturas corporal específica da comunidade.

DADOS GERAIS

A Comunidade Indígena Wassu-Cocal está localizada na zona da mata alagoana, no município de Joaquim Gomes e a 84 quilômetros da capital Maceió. A população, segundo o Censo Demográfico 2010, é de 2.234 pessoas, distribuído em quatro núcleos: Cocal, Pedrinhas, Fazenda Freitas e Serrinhas.

Localização da Comunidade Indígena Wassu-Cocal. Fonte: DNIT; COPPETEC. Estudos Etnoecológicos – Relatório final Terra Indígena Wassu-Cocal. Rio de Janeiro, 2011.

LIDERANÇAS

Jeová José Honório da Silva – Cacique

José Cícero (Lula) – Pajé

¹ - CAVALCANTE, Diogo Velho. Ministro dos Negócios, Comércio e Obras Públicas. Relatório sobre as Aldeias da Província das Alagoas. Maceió, 1870.
² - Clóvis Antunes foi um dos criadores da Comissão Pró-índio de Alagoas na Sociedade Alagoana de Defesa dos Direitos Humanos, foi um dos promotores do I Encontro Estadual dos Índios de Alagoas, um dos responsáveis pelo reconhecimento dos Wassu-Cocal e dos Tingui-Botó e Presidente do Grupo Especial de Estudos Indigenistas que foi criado pelo Governo do Estado pela Portaria Nº 279 de 06 de abril de 1983.

BIBLIOGRAFIA

Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes; COPPETEC. Estudos Etnoecológicos – Relatório final Terra Indígena Wassu-Cocal. Rio de Janeiro, 2011.

SILVA, Edson. Os índios Wassu e a Guerra do Paraguai: história, memória e leituras indígenas sobre o conflito. Revista Cabanos. Maceió, 2006. Disponível em: http://ocabano.blogspot.com.br/2007/02/os-ndios-wass-e-guerra-do-paraguai.html